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GRUPO CORPO – GIRA

Gira
S.f. Bras [Do quimbundo njila, ‘giro’; do quicongo nzila, ‘caminho’]
Na umbanda, roda de fiéis em que se cultuam as entidades (‘seres espirituais’) do terreiro ou centro com cânticos, danças rituais, passes, oferendas etc. Termo possivelmente originado dos ritos do candomblé, uma das matrizes da umbanda, onde as danças acontecem em círculo.
Mesmo que jira, enjira, canjira, corruptelas de Njila, Pambunzila, Bombojira, alguns dos nomes relacionados a Exu nos candomblés angola-congo.

Os ritos da umbanda – a mais cultuada das religiões nascidas no Brasil, resultado da fusão do candomblé com o catolicismo e o kardecismo, e patrimônio imaterial do Rio Janeiro desde novembro passado – são a grande fonte de inspiração da estética cênica de Gira, a mais nova criação do GRUPO CORPO, fruto da parceria inédita com a banda paulistana Metá Metá, que assina a música original do espetáculo.

Mas é Exu – princípio dinâmico, sem o qual tudo seria estático, mensageiro entre o mundo espiritual (Orun) e o mundo material (Aiye), Deus da expansão e da multiplicação infinita, senhor de todos os caminhos e aquele que faz o torto endireitar e o direito entortar, na cosmologia africana – quem guia e atua como força propulsora ao espetáculo, que estreia em 4 de agosto, uma sexta-feira, no palco do Teatro Alfa, em São Paulo, onde fica em cartaz até o domingo, dia 13, partindo em seguida para uma ‘gira’ por três capitais brasileiras: Rio de Janeiro (Theatro Municipal, 23 a 27 de agosto), Belo Horizonte (Palácio das Artes, 2 a 6 de setembro) e Porto Alegre (Teatro do Sesi, 7 e 8 de outubro).
Com coreografia de Rodrigo Pederneiras, cenografia de Paulo Pederneiras, iluminação de Paulo e Gabriel Pederneiras e figurinos de Freusa Zechmeister, o novo balé se apresenta em programa duplo com Bach, de 1996, obra marcada também por uma intensa carga de religiosidade, que tem como ponto de partida uma criação livre de Marco Antônio Guimarães sobre a música do alemão Johann Sebastian Bach e há exatos dez anos não é encenada no Brasil.
Chão, céu, caos

Conhecido por sua aproximação da cultura afro-brasileira através dos cultos religiosos (candomblé) de influência iorubá, fon e bantu, o Metá Metá (“três ao mesmo tempo”, em iorubá) lançou a isca durante um dos primeiros encontros sobre a trilha, realizado em um estúdio em São Paulo, em outubro passado. Ao conceber seu terceiro disco, o MM3, lançado em março daquele ano, o trio formado por Juçara Marçal (voz), Thiago França (sax) e Kiko Dinucci (guitarra) pretendia dedicar o trabalho, de cabo a rabo, ao mais humano dos orixás: Exu. Mas acabou por não fazê-lo. E vislumbrava agora, na oportunidade oferecida pelo CORPO, um excelente pretexto para consumar este anseio. Diante da força ancestral e do manancial infinito de movimentos envolvidos nos cultos afro-brasileiros, não foi preciso mais que um átimo para convencer os irmãos Pederneiras.
Logo, Rodrigo e Paulo deram início às primeiras gestões para penetrar neste universo sem fim e absolutamente desconhecido para eles. A literatura, claro, não deu conta do recado. Era preciso ir direto ao ponto. E, assim, tinha início um processo, digamos, de “pesquisa de campo”, inédito na história da companhia. Em reiteradas visitas a terreiros de candomblé e umbanda, coreógrafo, diretor artístico e bailarinos foram, por assim dizer, incorporando, sob uma perspectiva muito própria, os principais preceitos desses ritos, impulso primordial para a criação do movimento. Por ser mais sincrética e brasileira, a umbanda foi se impondo mais que o candomblé, a que o Metá Metá é tão ligado.
E, como a Arte, por definição, dispensa a literalidade e impõe a cada rito a sua forma, Gira foi se moldando como uma transubstanciação poética da necessidade atávica do homem (chão) de se conectar com o divino (céu) ou simplesmente com o oculto (caos?).

Um “quadrado” de linóleo negro, de 13m X 9m, intensamente iluminado, demarca o espaço cênico onde se dará a gira que celebra o encontro do GRUPO CORPO com o Metá Metá. Em seu entorno, nas duas laterais e ao fundo, onde estariam as coxias, tradicionalmente invisíveis para o público, 21 cadeiras se perfilam em uma área imersa nas sombras e muito sutilmente tangível, que forma uma semiarena. Sobre cada cadeira, uma luz tênue de tungstênio indica que uma presença incorpórea faz morada ali. Concebido como uma instalação, o não-cenário assinado por Paulo Pederneiras cobre com o mesmo tule negro os corpos dos bailarinos sempre que estão fora da cena, transformando-os em éter, e as três paredes da caixa-preta, criando uma ilusão quase espectral de infinito.
Convidados a entrar ou se retirar do espaço luminoso onde têm lugar a gira, independente da área cênica em que se encontram, os 21 bailarinos do CORPO representam ou estão a serviço sempre de uma entidade. Em seu estado etéreo ou montada em seu “cavalo”. E tudo o que não é isso é igualmente transe, pois é corpo que vagueia no ‘entre’ do movimento encantatório, mais ou menos brusco, de acolher ou de expulsar do corpo o sopro de um espírito que lhe é alheio.

Deus do movimento e emissário entre os planos terreno e divino – sem o qual, nas religiões de matriz africana, o culto simplesmente não funciona –, Exu é o motivo poético que guia os onze temas especialmente criados pelo Metá Metá para Gira. Os títulos das faixas não deixam margem para dúvidas: Ogó (bastão em forma de falo que simboliza Exu), Okuta Yangi (pedra fundamental da mitologia iorubá, representação mais importante de Exu), Bará e Okoto (duas variações de Exu), Sete (Seu Sete é uma das mais populares manifestações de Exu na umbanda) e por aí vai.

Useiro e vezeiro em promover a instauração do caos como instrumento de provocação de uma nova ordem, Èsù (“esfera”, na língua iorubana) parece ter resolvido, matreiramente, fazer eclodir seu talento para reviravoltas no processo de criação da música do espetáculo. Habituados a entrar em estúdio e gravar de prima, como se estivessem em cena aberta, Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci – o terceto primordial do Metá Metá – e Sergio Machado (bateria, sampler e percussão) e Marcelo Cabral (baixo elétrico e acústico) – estreitos e intensos colaboradores nesta criação – se viram em palpos de aranha quando entregaram o conjunto de temas para o GRUPO CORPO. Formatada inicialmente como um disco da banda, onde os temas ou canções, se esgotam em si mesmos, a trilha não abria espaço para o exercício pleno de uma arte eminentemente física, que atinge a sua completude através da ocupação do espaço –  o que reclama, necessariamente, tempo, respiração. Resultado: foi preciso eliminar temas, conceber e dilatar outros, enfim, implodir a criação, para reergue-la dentro de uma nova configuração.

Perpetuada em CD pelo CORPO, como de hábito, Gira, a trilha, conta com as participações especiais do poeta, ensaísta e artista plástico Nuno Ramos, que assina, a convite, a letra de Pé, da qual foram extraídos os versos dos títulos e intertítulos deste texto, e da cantora Elza Soares, que derrama sua voz ancestral e mitológica em duas faixas.

Logo no início de Gira, um grupo de sete bailarinas ocupa o centro da cena. Mãos cruzadas sobre a lateral esquerda do quadril, olhos fechados, troncos que pendulam sobre si mesmos em vaguíssimas órbitas, tudo nelas sugere o transe. Está estabelecido o caráter volátil do que se passará no palco dali para frente.
Mas engana-se quem pensa que vai assistir a uma representação mimética dos cultos afro-brasileiros. Alimentado pela experiência presencial em ritos de celebração tanto do candomblé quanto da umbanda (em especial as giras de Exu), Rodrigo Pederneiras (re)constrói o poderoso glossário de gestos e movimentos a que teve acesso, fundindo-o com maestria ao vasto vocabulário edificado em mais de três décadas de prática como coreógrafo residente do GRUPO CORPO.

Riscadas por trios, duos ou solos brevíssimos, as formações de grupo (no mais das vezes em número de sete) serão recorrentes, como infinitas as variações de movimento que sugerem o encontro mediúnico de entidades com seus “cavalos”. Em uma trilha eminentemente rítmica, duas grandes respirações melódicas abrem espaço para a materialização de solos femininos imperiosos, dançados sobre a voz de instrumentos igualmente solitários – o baixo acústico de Marcelo Cabral, em Agô Lonan, e o sax tenor de Thiago França, em Okuta Yangi I (tema inspirado na concepção de Exu por Orunmilá e sua esposa).

Nos figurinos, Freusa Zechmeister adota a mesma linguagem para todo o elenco, independente do gênero: torso nu, com a outra metade do corpo coberta por saias brancas de corte primitivo e tecido cru.

Quem pisou no chão?
Quem pisou no céu?
Quem pisou no caos?

PROGRAMA – BACH [1996]
coreografia: RODRIGO PEDERNEIRAS
música: MARCO ANTÔNIO GUIMARÃES [sobre a obra de J. S. Bach]
cenografia: FERNANDO VELLOSO e PAULO PEDERNEIRAS
figurino: FREUSA ZECHMEISTER
iluminação: PAULO PEDERNEIRAS
[duração:  45 minutos]

Um jogo entre o que se ouve e o que se vê, onde o barroco de Bach e o barroco de Minas Gerais, no Brasil, se realizam como dança. A coreografia aspira ao que está acima, e a música, ao que está dentro das partituras de Bach e que Marco Antônio Guimarães, o compositor, nos ajuda a descobrir.
Entre azuis, dourados e escuros, uma dança que celebra a arquitetura da vida: fluxo contínuo de onde emergem construções cinéticas surpreendentes.

f o t o  l u i z p e d e r n e i r a s

Teatro do Sesi
Quando? Ingressos:
7 e 8 de outubro

P. baixa-R$ 100
P. baixa-R$ 90
Mezanino-R$ 70

www.blueticket.com.br
ou nas lojas Multisom.
No local somente nos dias das apresentações.

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